30/5/2005
Gargalos nos trilhos elevam os preços
de combustíveis
Consumidores no interior do país estão pagando a gasolina,
o álcool e o diesel mais caro na bomba por força de limitações
para usar as ferrovias na transferência dos derivados entre as
bases primárias, situadas próximas às refinarias
de petróleo, e as bases secundárias, usadas para armazenar
os produtos antes da entrega aos clientes finais. O frete ferroviário
de uma carga de combustível transportada entre Paulínia
e São José do Rio Preto, no interior de São Paulo,
representa, em média, 2,8% do preço do derivado na bomba,
no destino. Esse percentual quase dobra quando o trajeto é feito
por rodovia e a diferença, invariavelmente, bate direto no bolso
do consumidor.
As conclusões fazem parte de estudo inédito do Centro
de Estudos em Logística (CEL), da Coppead/UFRJ intitulado "Planejamento
integrado do sistema logístico de distribuição
de combustíveis". O trabalho mostra que gargalos ferroviários
existentes na transferência de combustíveis geram custos
adicionais de cerca de R$ 50 milhões por ano.
Se nada for feito para reduzir as ineficiências na logística
do álcool, diesel e gasolina, em três anos os custos acumulados
serão de R$ 200 milhões, avalia o estudo. O montante considera,
além do custo anual de R$ 50 milhões, a taxa de crescimento
na demanda destes derivados.
A necessidade, em muitos casos, de usar o caminhão ao invés
do trem para fazer as transferências dos combustíveis até
as bases secundárias aumenta os custos da cadeia de suprimentos,
com redução média de 20% nas margens de venda da
distribuição e de 6% na revenda (postos), aponta Paulo
Fernando Fleury, coordenador do estudo e diretor do CEL.
Fleury salientou que o trabalho busca identificar as deficiências
na infra-estrutura de transportes. Para ele, isso provoca impactos na
logística de combustíveis, afetando os preços e
a economia interna. São 52 milhões de toneladas de álcool,
diesel e gasolina movimentados por ano, o equivalente a um custo logístico
de R$ 2 bilhões.
O trabalho, que será apresentado no 4º Seminário
Brasileiro de Logística de Distribuição de Combustíveis,
que o Instituto Brasileiro de Petróleo e Gás (IBP) promove
nos dias 1º e 2 de junho, no Rio, identificou gargalos ferroviários
em diversas rotas de transferência de combustíveis.
Do volume total de gasolina, álcool e diesel transferido das
bases primárias para as bases secundárias no país,
61% são feitos por ferrovia, 31% por rodovia e 8% por hidrovias.
Na visão de Fleury, não se devia fazer transferência
de combustível pelo modal rodoviário. Já a entrega,
ou seja, o fracionamento do produto para grandes clientes e postos revendedores,
só pode ser feita por caminhão.
Segundo o relatório do CEL, elaborado sob encomenda do IBP,
as más condições das estradas aumentam os custos
variáveis do transporte rodoviário, elevando os fretes
em até 5%. "A conta do frete rodoviário dos combustíveis
cresce R$ 31 milhões por ano", diz Fleury. Ele estima que
se as entregas de longas distâncias feitas por caminhão
fossem substituídas por transferências ferroviárias
e, a seguir, por entregas rodoviárias, poderiam ser obtidos ganhos
de até R$ 15 milhões por ano. "Existem trechos onde
a ferrovia não chega ou onde ela ainda não existe",
definiu Fleury.
O trabalho do CEL estima que são necessários investimentos
de R$ 1,5 bilhão para construir novos trechos ferroviários
e mais R$ 700 milhões para aplicação em recuperação
de linhas e compra de locomotivas e vagões-tanque. O estudo também
identificou que o custo de capital e os volumes de combustível
movimentados no país não permitem viabilizar a construção
de novos dutos para transporte de derivados. O duto é a forma
mais econômica e segura de transportar combustível.
João Carlos Antunes, que integra a comissão de logística
do IBP, disse que é intenção da entidade entregar
o trabalho às autoridades governamentais para que sirva de base
em futuras ações. Outro diagnóstico feito pelo
trabalho é a necessidade de investir em tancagem, dragagem e
acessos nos portos para melhorar as condições para importação
de diesel e exportação de álcool.
Por Valor Econômico