A redução das taxas de juros nas linhas de crédito para aquisição de bens de capital, promovida pelo Programa de Sustentação do Investimento (PSI) do governo federal, já provoca filas nos bancos e atrasos na liberação dos recursos para financiamento de equipamentos para o transporte rodoviário de cargas (carrocerias sobre chassi, reboques e semirreboques).
Sem crédito para escoar a produção, e já com os pátios lotados, as empresas do setor começam a reduzir o ritmo e já falam em férias coletivas para os trabalhadores.
De acordo com o presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Implementos Rodoviários (Anfir), Rafael Wolf Campos, as empresas normalmente trabalham com apenas quatro ou cinco dias de estoque, já que a produção é sob encomenda. Além disso, 90% das vendas dependem de linhas de crédito no âmbito do Finame do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
"O tempo médio de espera para recebimento de um Finame, que até o fim do ano passado era de 30 a 35 dias, hoje está na casa de 90 a 120 dias", diz Campos. Segundo ele, boa parte das fábricas está com mais de 30 dias de produção encalhada nos pátios.
Os produtos estão vendidos, mas não foram ainda faturados por causa da morosidade dos agentes repassadores do Finame na liberação dos financiamentos já aprovados.
"As empresas já cortaram as horas extras e estão reduzindo o segundo turno de trabalho, mas, se a situação não se normalizar, serão obrigadas a colocar os funcionários em férias coletivas", afirma o executivo.
Na Randon, líder de vendas no segmento de implementos, com faturamento de R$ 1,3 bilhão em 2009, a quantidade de produtos prontos que permanecem parados nos pátios das fábricas de Caxias do Sul (RS) e Guarulhos (SP) equivalem a mais de 20 dias de produção.
"Ainda não chegamos ao ponto de reduzir a produção, porque o mercado está muito demandante, mas o nosso caixa já está tendo dificuldades", conta o diretor administrativo e financeiro, Jaime Vergani.
Na semana passada, o presidente da Anfir se reuniu no BNDES com o diretor-superintendente, Cláudio Bernardo, que garantiu não haver problemas de recursos no banco para a liberação dos créditos. Ele prometeu interceder para que os agentes agilizem os processos.
Segundo a assessoria do BNDES, Bernardo ligou para os principais agentes financeiros, que atribuíram o problema ao crescimento no volume de pedidos. Os bancos afirmaram que a situação seria normalizada em breve. "Eles dizem que não têm estrutura suficiente para atender ao excesso de demanda, mas vale lembrar que em 2008 o nosso mercado era 15% maior do que é hoje e esse problema não existia", assinala Campos.
Em vigor desde julho de 2009, o PSI reduziu de 11,5% para 7% ao ano os juros no financiamento de ônibus e caminhões (incluindo implementos rodoviários). No Programa Pró-caminhoneiro, destinado a microempresários e autônomos, a taxa caiu de 13,5% para 4,5%.
Só em janeiro, o Finame Caminhões totalizou R$ 2 bilhões, ante R$ 770 milhões em igual período de 2009. Em janeiro e fevereiro, o Pró-caminhoneiro atingiu R$ 940 milhões, 11 vezes mais que em todo o primeiro semestre do ano passado (R$ 78,7 milhões).
Fonte: O Estado de S. Paulo